A Morte em Vida: Crônica de uma Zumbificação
Uma reflexão ácida sobre como a rotina moderna, as telas e a busca por produtividade nos transformaram nos mesmos zumbis que assistimos no cinema: prisioneiros automáticos de um sistema que nos faz esquecer o que é estar vivo.
Não é preciso um apocalipse viral, um cogumelo parasita rompendo o córtex cerebral ou uma radiação mágica reanimando cadáveres. A zumbificação já acontece de forma silenciosa e metódica, sendo documentada diariamente em feeds que ninguém mais questiona.
Ao observar o padrão, veem-se seres que se movem sem propósito real e apenas replicam comportamentos aprendidos. São mãos que se erguem mecanicamente para pegar o telefone e olhos opacos fixos em telas, devorando conteúdo assim como os mortos-vivos de The Walking Dead devoram carne. Trata-se de um ciclo de consumo que nunca termina, sem satisfação ou saciedade, definindo com precisão o nosso mundo.
Conhecemos bem a metáfora da corrida dos ratos, na qual milhões correm freneticamente em uma roda gigante que gera exaustão total e deslocamento zero. É exatamente nisso que nos tornamos ao acordar cedo, trabalhar doze horas, pagar contas e dormir, repetindo o processo para sempre.
No filme 28 Days Later, os infectados são corpos funcionando sob a única instrução de espalhar a infecção. Hoje a nossa programação é diferente, mas igualmente compulsória, focada em produtividade, crescimento e consumo. A corrida continua porque alguém lucra com a nossa fadiga, levando multidões a correr por acreditarem que essa rotina é a própria vida. Não há espaço para questionar ou parar, pois qualquer pausa gera culpa e o pensamento crítico é lido como preguiça. A roda segue e nós seguimos junto com ela.
Em Resident Evil, os monstros perdem a identidade e se tornam réplicas sem vontade própria. Isso se reflete nas pessoas ao nosso redor, que vestem, comem, pensam e desejam exatamente o mesmo. O algoritmo escolhe o que amamos antes mesmo de percebermos, criando smartphones, ideias e medos idênticos.
A moda muda, porém a conformidade permanece, com todos perseguindo o mesmo carro e a mesma casa dos sonhos. É um objetivo que custa décadas de existência e deixa a maioria vazia no final.
Já no jogo Plants vs. Zombies, o inimigo avança de forma eterna e hipnotizante. Essa dinâmica traduz a vida nas grandes cidades, presas no loop de emprego, moradia, consumo e dívida. O jogo nunca termina e o jogador apenas fica mais cansado.
O verdadeiro horror não é ser devorado, mas deixar de desejar qualquer coisa além do que fomos programados para querer. As criaturas do cinema não sofrem porque não pensam, enquanto nós pensamos e sabemos que existe uma corrente em nosso pescoço, embora ainda assim nos perguntemos por que não conseguimos fugir. Essa é a verdadeira maldição.
Passamos horas navegando em redes sociais, comprando o que não precisamos com o dinheiro que não temos para impressionar pessoas das quais não gostamos. Trabalhamos em funções sem propósito e financiamos máquinas que nos tornam obsoletos, criticando o sistema ao mesmo tempo em que reforçamos cada uma de suas engrenagens.
O jogo Half-Life apresenta os vortigaunts, criaturas escravizadas que conseguem pensar, mas foram submetidas. Hoje atuamos como vortigaunts voluntários que aceitam o jugo porque venderam isso como liberdade. Dizem que podemos ser o que quisermos, só que apenas nos deixam escolher entre as opções que já foram oferecidas. Ficar entre universidade e trabalho precário não é uma escolha real, mas sim uma submissão disfarçada.
Os infectados de The Last of Us perderam a autonomia e atacam sem saber o motivo. Nós, por outro lado, sabemos exatamente o que está acontecendo após ler artigos e assistir a documentários sobre exploração, mas continuamos fazendo a mesma coisa de sempre.
Talvez isso seja ainda pior. A zumbificação não é súbita, pois não há um flash de luz ou um ataque coordenado. Ela é tão gradual que ninguém percebe quando deixou de viver e começou apenas a existir. Trinta anos depois, você continua preso na mesma corrida e percebe que morreu pelo caminho, tornando-se aquilo que a ficção tentava nos alertar.
A única diferença é que, ao contrário dos monstros dos filmes, jogos e livros, você ainda pode acordar. A questão que ninguém faz é quando isso vai acontecer, porque o verdadeiro apocalipse zumbi é aquele em que a vítima acredita estar viva.