Você é realmente livre?
A ONU garante que você nasce livre. O começo é promissor, mas ela não diz muita coisa sobre o que acontece depois. O mercado leu com atenção, gostou, e discretamente acrescentou as letras miúdas. Afinal, ninguém vende grilhões chamando de grilhões.
Pense bem antes de responder a pergunta que intitula esta postagem. A maioria das pessoas diria que sim. Temos escolhas, opiniões, preferências. Podemos escolher a roupa que vestimos, o emprego que aceitamos ou os produtos que compramos. Mas será que escolher dentro de uma gaiola conta como opção?
Se existe algum sopro de liberdade real na experiência humana, ele morre ainda no berço. Os bebês são os únicos seres verdadeiramente livres. Alheios ao tempo e mestres de seus próprios impulsos, desconhecem as amarras impostas pela sociedade. Não têm noção do que é dinheiro e não precisam vestir máscaras sociais. Seus ritmos são ditados apenas pela vida que pulsa em seus corpos. Mas essa soberania dura pouco.
A infância termina formalmente quando os pais entregam os filhos à escola, movidos, mesmo que sem perceber, pela lógica implacável da produtividade. Não se trata de emancipação pelo conhecimento, mas do início prático do enquadramento social.
Na escola, a criança aprende a lógica da prisão. É confinada entre quatro paredes, vigiada em tempo integral, obrigada a usar uniforme e a subordinar reflexos biológicos básicos ao comando de um agente (o professor) ou de um sinal sonoro. Falar, mover-se e ir ao banheiro deixam de ser atos espontâneos e passam a depender de autorização. O sino não organiza o aprendizado. Ele habitua o corpo e a mente à obediência mecânica. É o ensaio geral para o relógio de ponto que controlará o resto da vida adulta.
Essa domesticação tem um objetivo claro: moldar mão de obra. O mercado dita as regras antes mesmo de o indivíduo entender o que é economia. A própria escola já é mercantilizada, custeada por mensalidades ou por impostos sobre o trabalho. Ninguém é educado para ser livre, mas para ser funcional e produtivo dentro de um sistema que opera sob uma única métrica: o dinheiro.
A farsa da liberdade atinge seu ápice na maioridade. A Constituição Federal brasileira garante a liberdade como direito fundamental. A Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, proclamada em 1948, vai na mesma direção e afirma que todo ser humano nasce livre. Belas palavras. Mas liberdade até onde, exatamente? Até a primeira conta a pagar, diria eu. O confinamento físico da escola é trocado pelo confinamento econômico do mercado de trabalho, e o discurso oficial se encarrega de chamar isso de livre-arbítrio. A liberdade que nos vendem é sempre condicionada à capacidade de pagar por ela.
Numa sociedade onde sobrevivência e dignidade foram privatizadas, o dinheiro deixa de ser meio de troca e passa a ser a própria amarra de controle. Você não é livre para escolher o que fazer com a sua vida quando a alternativa a não vender o seu tempo é a miséria, a fome ou a invisibilidade social.
E é aqui que a pergunta inicial volta com força: você é mesmo livre? A rotina do adulto comum resume-se a alugar o próprio corpo e intelecto por 8, 10 ou 12 horas diárias para pagar pelo direito básico de continuar existindo: moradia, comida e saúde. O dinheiro é o vigia invisível dessa estrutura. Ele dita onde você pode ir, o que pode comer, com quem pode se relacionar e o quanto a sua voz tem algum peso.
A conclusão é simples. A liberdade humana no mundo contemporâneo é um produto de prateleira. Somos condicionados desde a infância a aceitar a coleira e, quando adultos, passamos a celebrar o comprimento da corrente. O shopping center virou o pátio do presídio, onde o consumo serve de anestesia para a nossa submissão. O ser humano não é livre: é apenas um prisioneiro autofinanciado.